domingo, 10 de junho de 2012

MAIS SUGESTÕES DE FILMES SOBRE A ÁFRICA
 
 

O JARDINEIRO FIEL

O JARDINEIRO FIEL (O JARDINEIRO FIEL)

África pede socorro! - Estima-se que daqui a 20 anos mais de 30% da população africana seja devastada pelo vírus HIV e tipos raros de tuberculose. E o que as grandes potências, digo, o G-8 Grupo das oito maiores potências do mundo fazem? Pouco, muito pouco!
Em uma palestra da ONU, onde Justin Quayle (Ralph Fiennes), um representante do alto escalão do governo britânico proferi uma palestra sobre ações pacíficas de seu governo, Justin, no término da palestra, é indagado por uma jovem pacifista, Tessa (Rachel Weisz), sobre o que ele tinha a dizer do apoio político e militar de seu governo a invasão do Iraque e também sobre os milhares de civis mortos.
Cria-se um mal estar na palestra, amigos de Tessa tentam fazê-la parar, em vão, ela descarrega um discurso pra lá de pacifista pra cima de Quayle. As pessoas se retiram do recinto, restando apenas réu e acusador. Os dois rumam para um café, ele compartilha das idéias da garota, iniciam uma sincera relação de amor.
Justin está de partida para a África, Tessa pede pra ir junto, partem rumo à outra realidade. Lá, Tessa logo faz amizades, engravida e começa a se envolver com questões delicadas: empresas farmacêuticas que atuam no continente usando africanos como cobaias de um novo remédio e que pode estar matando milhões de pessoas.
Logo de cara já sabemos que Tessa é assassinada. Justin começa a investigar os motivos do assassinato, inicia uma caminhada rumo ao inferno, já não há mais em quem confiar, tenta rastrear o parceiro de Tessa nas ações investigatórias e pacifistas. Arnold, médico e africano, que também é posto fora de circulação, nessa busca por respostas, Quayle passa a ser ameaçado de morte. 
O filme não tem uma linguagem linear, passado e presente se intercalam. O diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus) acertou em cheio quando optou por fazer as cenas nas favelas do Quênia, o tom realista com a excelente fotografia, nos deixa intrigado e incomodado. O excelente roteiro é uma adaptação do best seller de Jonh Lê Carré. 
E digo novamente, a África agoniza e pede ajuda!

Direção: Fernando MeirellesDistribuição: UIPGênero: DramaDuração: 129 min.


LUGAR NENHUM NA ÁFRICA

Em 1938, ainda não havia guerra, mas os sinais de que a Alemanha não era mais um lugar seguro para os judeus eram claros. Foi por isso que o advogado Walter Redlich (Merab Ninidze), em viagem à África, escreve para a mulher, Jettel (Juliane Köhler), pedindo que ela e a pequena Regina, a filha do casal, se mudem para o Quênia, onde podem começar vida nova como fazendeiros. Deve ser apenas por um breve tempo, até a derrota dos nazistas. 
Mas Hitler continua no poder e Jettel detesta cada minuto na África. Acostumada ao luxo e à riqueza, ela trata os locais como servos, faz coisas como pedir que homens carreguem água (tarefa exclusivamente feminina na cultura dos nativos) e não trata o marido com o carinho de quando ele era advogado em Breslau. Regina, no entanto, não está nem aí: faz amizade com as crianças africanas rapidamente, aprende o idioma local, está perfeitamente à vontade no novo ambiente. Só na adolescência ela saberá o quanto custa ser judia. Quando a guerra chegar e a família de Jettel, que ficou na Alemanha, for deportada, Walter terá certeza de que sua decisão foi a melhor. Mas ele sonha com um retorno à terra natal, enquanto o tempo vai acostumando Jettel ao novo continente. 
Representando a Alemanha no Oscar 2003, Lugar Nenhum na Áfricalevou a estatueta de filme estrangeiro (não é segredo que filmes com/sobre judeus são sempre bem vistos pela Academia) e ganhou vários prêmios em seu país. O longa é baseado na autobiografia da jornalista alemã Stefanie Zweig, que era criança quando se mudou para o Quênia - seguindo esta idéia, o filme é narrado por Regina.

Direção: Caroline LinkDistribuição: Califórnia FilmesGênero: Drama
Duração: 141 minutos 


UMA AVENTURA NA ÁFRICA

Na pequena aldeia de Kung Du, situada na África Oriental Alemã, Rose Sayer é uma mulher solteira que vive com o irmão, o missionário Rev. Samuel.  Nos serviços dominicais, enquanto ele prega a palavra de Deus para os nativos, ela toca órgão.
Certo dia, em mais uma de suas paradas de rotina, chega ao local o "African Queen", um pequeno
barco a vapor de pouco mais de 3 metros de comprimento, conduzido por seu proprietário, Charlie Allnut, um beberrão que faz transporte da correspondência e de suprimentos para a região.
Charlie comenta que uma guerra de grandes proporções eclodiu, envolvendo principalmente a Alemanha, a Inglaterra e a França e, por conseqüência, eles não se acham em segurança por estarem numa região dominada por alemães.
Pouco depois que o "African Queen" deixa a aldeia, um pelotão de soldados alemães chega ao local e ateia fogo nas cabanas dos nativos.  O missionário e sua irmã saem ilesos, mas o Rev. Samuel, abatido, não consegue viver por muito tempo.  Ele morre na manhã em que Charlie retorna à aldeia.  Ao tomar conhecimento do ocorrido, ele ajuda Rose a enterrar o irmão e, em seguida, a convida para fugir no "African Queen", enquanto ainda há tempo.  Sem alternativas, Rose embarca na pequena embarcação, numa aventura imprevisível.  Na opinião dela, o único meio para retornar à Inglaterra e ajudar no esforço de guerra, é enfrentar as traiçoeiras corredeiras dos rios Ulanga e Bora, a fim de alcançar o grande lago da África Central.  Charlie é contra essa idéia por considerá-la suicida, pois além dos alemães darem tudo para pôr as mãos em seu carregamento, que inclui explosivo plástico e cilindros de oxigênio e hidrogênio, eles estarão navegando em território inimigo e, pior que tudo, o grande lago está sendo patrulhado por um grande navio de guerra alemão, o "Louisa".  A insistência de Rose é tamanha que Charlie termina aderindo a seu plano.
Os dois iniciam a descida dos rios e, ajudando-se mutuamente, em pouco tempo forma-se um forte laço de confiança e amizade entre eles.  Depois de enfrentarem as primeiras corredeiras, deparam-se com o Forte Shona, ocupado pelos alemães.  Sob fogo cerrado, conseguem passar pelo Forte graças à forte correnteza e ao fato da posição do sol ofuscar a visão dos soldados inimigos. A seguir, enfrentam a pior de todas as corredeiras, mas a sorte continua com eles.  Ao atingirem as águas calmas do rio, eles se abraçam e se beijam de tanta alegria.  A admiração e a afeição que um passa a ter pelo outro evolui rapidamente para um sentimento mais profundo, que os leva à sua primeira noite juntos.  As dificuldades continuam até que, um dia, acordam nas águas do Grande Lago.  Ao olharem para o horizonte, avistam o "Louisa" vindo em sua direção.  No entanto, o barco alemão passa e não os vê.
Com o material explosivo que carregam, eles improvisam dois torpedos com a idéia de jogarem o "African Queen" contra o "Louisa", quando este retornar em sua patrulha, tendo o cuidado de saltarem na água antes da colisão.  Tudo preparado, aguardam o inimigo que volta após escurecer.  Decididos, partem em direção ao alvo alemão, mas uma forte tempestade os obriga a abandonarem o "African Queen".
Os dois são apanhados pelos alemães e, após serem submetidos a um julgamento sumário, como espiões, são condenados à morte por enforcamento, na manhã seguinte.  Na hora em que são levados para a forca, Charlie faz um último pedido ao comandante alemão: "que antes de serem enforcados, que ele os case".   Atendendo ao seu pedido, o comandante celebra a união deles, declarando-os marido e mulher.  Logo a seguir, ouve-se uma tremenda explosão, levando pânico a todos.  É que o "Louisa" havia colidido com os torpedos do "African Queen" que se achavam semi-submersos.
De uma hora para outra, os recém-casados se vêem nas águas do lago, enquanto o "Louisa" é envolto em chamas.

Direção: John Huston
Distribuição: Paramount
Gênero: Aventura
Duração: 105 min.

TRANSGÊNICOS / ÁFRICA

O direito de dizer "não"


No Mali, uma das vítimas do dumping do algodão praticado pelos EUA, um júri de agricultores rejeita as pressões para introduzir dos OGM e defende uma agricultura de inclusão social e respeito à natureza Roger Gaillard - (01/04/2006)

Em janeiro, um surpreendente exercício de democracia participativa reúne 43 pequenos agricultores, com uma grande participação feminina Um homem alto e magro, usando uma túnica azul turquesa, levanta-se rapidamente e toma o microfone. Com a voz vibrante, cavanhaque simpático e o dedo apontado para o ventilador, que tenta dar conta do calor do meio dia, ele dirige-se à assembléia em bambara, a língua local: "Por que pedem a nós, agricultores pobres, que aceitemos os transgênicos que os agricultores ricos do norte recusam?" Pode-se ouvir o burburinho de aprovação na platéia. Em seguida, o microfone passa a uma jovem agricultora que veio com seu bebê: "De que adianta produzirmos mais com o uso de transgênicos se nunca conseguimos escoar a produção a um preço justo?" A cena passa-se em Sikasso, pacata cidade do sul do Mali, no coração de uma província rural que produz dois terços da principal fonte de divisas do país (um dos mais pobres da África e do mundo): o algodão.
Durante cinco dias, de 25 a 29 de janeiro de 2006, um surpreendente exercício de democracia participativa reuniu 43 pequenos agricultores, com uma grande participação feminina. A pedido da assembléia regional de Sikasso (o parlamento regional) esses plantadores de algodão, vindos de toda a região, tinham como missão constituir um júri cidadão com o objetivo de avaliar as vantagens e inconvenientes de uma eventual introdução de organismos geneticamente modificados na agricultura do país. 
Batizado de "Espaço Cidadão para a Discussão Democrática", em alusão a mecanismos de debates públicos já bastante conhecidos no Mali, este júri - pioneiro na África Ocidental - foi patrocinado por parceiros europeus engajados na promoção de métodos participativos na avaliação de escolhas tecnológicas e políticas de desenvolvimento [1]. O fórum de Sikasso deve ser visto levando em conta as fortes pressões exercidas por multinacionais da indústria agroalimentar sobre os países africanos, sobretudo a Monsanto, norte-americana, e a Syngenta, suíça. Elas pregam a industrialização do setor agrícola e a abertura dos mercados aos cultivos transgênicos [2]. O principal alvo do discurso das multinacionais é o algodão Bt, que produz toxina eficaz contra certas pragas, o que teoricamente permitiria reduzir a necessidade de uso de pesticidas e garantiria aos agricultores melhores colheitas.
A África Ocidental é o terceiro maior produtor mundial de algodão: a commodity é de grande importância para essas companhias, que se beneficiam do apoio da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAid), instituição com orçamento de 100 milhões de dólares destinados à implementação de biotecnologias nos países em desenvolvimento. Exigido pelo Banco Mundial, o processo de privatização da empresa maliana de algodão derruba a renda dos camponeses, embora a produção seja duas vezes maior Agricultura em crise, respostas distintas As respostas do continente a essas pressões são cheias de contrastes. A Zâmbia, apesar de ameaçada pela fome, recusou a ajuda do programa mundial de alimentação, que incluía grande quantidade de milho transgênico norte-americano; mas o Benin aceitou essa ajuda ambígua, apesar de ter adotado, em 2002, uma moratória de cinco anos para os produtos transgênicos. 
Na África do Sul, país de grande importância na indústria agroalimentar, o algodão e o milho transgênicos são cultivados há mais de dez anos, com resultados controversos. Em Burkina Faso, vizinho do Mali, os testes de campo do algodão transgênico acontecem desde 2003, apesar da oposição de diversos setores da sociedade. Bastante atentos durante o processo, os membros do júri escutaram quinze testemunhas vindas da África Ocidental e Meridional, da Índia e da Europa. Biólogos moleculares, engenheiros agrônomos, membros de organizações não-governamentais e delegados de movimentos camponeses responderam a diversas perguntas sobre as vantagens e desvantagens do uso de transgênicos: riscos para a saúde e o meio ambiente, aumento real da produtividade, fatores sócio-econômicos, questões éticas e jurídicas, sem esquecer a dimensão cultural, muito reveladora, porque subconsciente. Em bambara, OGM (organismos geneticamente modificados) se diz Bayérè ma’shi ("A mãe nutrição transformada"). Numa leitura de mundo animista, fortemente presente no Mali, sob um verniz muçulmano, a simples materialidade da genética - introduzir genes de uma espécie em outra - era razão de aborrecimento para diversos ouvintes. O problema crucial do direito de propriedade intelectual e das patentes de organismos vivos foi bastante discutido, sobretudo pela geneticista beninense Jeanne Zoundjihekpon, da ONG Grain: "As sementes Bt são protegidas por patentes que dão às empresas poder absoluto sobre os agricultores. 
Os pequenos agricultores não têm o direito de guardar as sementes de uma safra para plantá-las no ano seguinte, como sempre se fez, podendo haver processo judicial no caso de desrespeito." O argumento toca um ponto sensível, principalmente porque a cultura algodoeira está em crise na África Ocidental, lembra Mamadou Goïta, dirigente da coalizão contra os organismos geneticamente modificados e para proteção do patrimônio genético do Mali. A Companhia de Têxteis do Mali, com 60% sob controle estatal e os demais 40% sob controle da empresa francesa Dagris, tornou-se deficitária devido à desvalorização do franco CFA e à crise mundial do "ouro branco" — ainda que a produção anual passou tenha saltado de 320 mil para 600 mil toneladas, entre 1994 a 2005. A privatização da empresa, prevista para 2008, foi exigida pelo Banco Mundial, que a impôs como condição indispensável a qualquer ajuda ao governo de Bamako. Em razão do déficit, o preço pago pela empresa pelo quilo de algodão caiu de 210 francos, em 2004, para 160 em 2006 (cerca de R$ 0,65) enquanto o custo dos insumos químicos segue aumentando.
Nessas condições, o algodão não é mais rentável e diversos agricultores que haviam optado por sua monocultura já pensam em voltar à cultura de gêneros alimentícios (cereais, milho). Mamadou Goïta fez ainda uma proposta: "O algodão biológico é um trunfo para chegarmos aos mercados de países europeus que rejeitam os transgênicos. De qualquer maneira, as relações de força são muito desiguais quando há potências como os Estados Unidos, que praticam dumping ao subsidiar maciçamente a produção de algodão: 4 bilhões de dólares por ano, para 25 mil produtores, enquanto no Mali o algodão sustenta mais de 3 milhões de pessoas". Relatadas no dia 29 de janeiro à assembléia regional, o veredito e as recomendações do júri cidadão foram difundidas por rádios, que transmitiram os debates e pela televisão do Mali Veredito após amplo debate.
As multinacionais convidadas recusaram-se a comparecer ao júri camponês. "Nós solicitamos várias vezes o comparecimento da Monsanto e da fundação Syngenta", diz Barbara Bordogna, bióloga da rede interdisciplinar de biossegurança de Genebra e membro do comitê de direção do Espaço Cidadão para a Discussão Democrática: "mas estas empresas estão, ao que tudo indica, reticentes a entrar em um processo de debate aberto e transparente, sobre o qual não tenham controle". A Monsanto apoiou a presença, no júri, de agricultores que defendiam sua causa. Vindo da África do Sul, o agricultor Zulu T.J. Buthelezi cultiva algodão Bt desde 1996. Ele assegura que a experiência é conclusiva. Os hectares semeados com algodão transgênico resistiram a uma inundação que havia devastado as plantas convencionais. Ele se converteu totalmente aos transgênicos, inclusive ao milho, que consome sem danos a sua saúde. "Façam como eu, enriqueçam!", disse ele aos agricultores do Mali. Vindo de Andhra Pradesh, Estado do centro da Índia, P.V. Satheesh apresentava, ao contrário, um estudo metódico, realizado ao longo de três anos, mostrando que os agricultores da região que cultivaram algodão convencional obtiveram melhores resultados em suas safras do que aqueles que cultivaram a variante transgênica. Além disso, o algodão Bt não exigia menor dispêndio com pesticidas do que o convencional. O custo elevado das sementes Bt, somou-se à produtividade decepcionante e acabou por levar muitos pequenos agricultores à ruína.
Como os pedidos de indenização à Monsanto são categoricamente rejeitados, o estado de Andhra Pradesh recentemente proibiu a empresa de operar em seu território. Além desses depoimentos divergentes, pudemos escutar posições intermediárias, especialmente as de Ouola Traoré, agrônomo e chefe do programa de algodão do Instituto Nacional do Meio-ambiente e Pesquisa Agrônoma (INERA) do Burkina Faso, onde o algodão Bt é testado desde 2003, com início de comercialização previsto para 2010. "Somente pesquisas aprofundadas com variedades locais adaptadas a nosso clima permitirão determinar se os transgênicos são uma solução futura para a África Ocidental" disse ele. Mas sua defesa de uma pesquisa pública africana autônoma esbarrou em uma platéia desconfiada, já que é notória a dependência das instituições científicas do continente em relação aos financiamentos de lobbies interessados no desenvolvimento de biotecnologias. Dividindo-se em diversas comissões - uma composta somente de mulheres - em função do escopo de suas discussões, os membros do júri deliberaram durante todo o dia, antes de dar seu veredito:"Não". 
Por unanimidade, os agricultores reunidos em Sikasso rejeitaram qualquer introdução de transgênicos no Mali. A preocupação fundamental deles é a preservação das sementes locais e do conhecimento técnico para que não dependam das multinacionais:"Queremos ser senhores de nossas terras, não queremos nos tornar escravos", afirmou Brahim Sidebe, um dos porta-vozes. Por sua vez, Birama Kone enfatizou a preservação do modo de vida amistoso: "Nossos agricultores estão acostumados à colaboração mútua, os transgênicos poderiam destruir o senso de amizade e solidariedade. Se eu tenho uma área de plantio transgênico e meu vizinho não tem, os problemas de contaminação vão gerar conflitos entre nós". 
Representante das mulheres, Basri Ligoita preconiza a necessidade de pesquisas a fim de melhorar as sementes locais através de técnicas agrícolas clássicas e uma melhor formação dos pequenos agricultores, sobretudo nos métodos de agricultura biológica. Transmitidas no dia 29 de janeiro à assembléia regional do Sikasso, as recomendações do júri cidadão foram passadas ao público pelas rádios, que se revezavam na transmissão dos debates, e também pela televisão do Mali. Essas recomendações não têm nenhum poder decisório, mas nada impede que sejam levadas em conta, pois o Mali assinou o protocolo de Cartagena [3] sobre a biodiversidade. O projeto de lei resultante prevê a organização, em âmbito nacional, de eventos com a participação popular antes da pesquisa ou introdução de organismos geneticamente modificados. "Não queremos nunca os transgênicos - exclamou Lidigoita - e pedimos ao governo que impeça sua entrada em nosso território. Se os agricultores o cultivarem ilegalmente, queimaremos suas terras!" 

(Trad. : Leonardo Abreu)
fonte: http://diplo.org.br/2006-04,a1289

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Geografia Cultural: Música e identidade africana - Fela Kuti

Eternamente em crise, ou uma disciplina em constante busca de identidade, ou como escapar do rótulo de simples disciplina escolar, ou não somos um mapa pendurado na lousa, ou isso serve para fazer a guerra, ou etc., diversas são as áreas que merecem, ou podem, servir de investigação geográfica.
Entre as numerosas possibilidades de estudar o papel da ação humana na superfície terrestre está a música. A Geografia Cultural incorpora a dimensão não material da ação humana ao leque dos estudos geográficos.
A Geografia Cultural não conta com o prestígio, ou a difusão ou o destaque, que outros campos usufruem no Brasil. Roberto Lobato Corrêa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é entre nós o principal divulgador da Geografia Cultural. Ele e Zeny Rosendahl, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura, da UERJ, são responsáveis pela organização de uma coleção que conta com mais de vinte volumes publicados que enriquecem o debate e a difusão da Geografia Cultural no Brasil.
Num dos volumes da coleção, um dos capítulos é o artigo[i] da geógrafa Lily Kong, da Universidade de Singapura, que é considerado uma referência básica sobre as referências entre música popular e espaço mapeando o caminho de diversas abordagens das pesquisas realizadas sobre o tema: a distribuição espacial das formas musicais, a análise da difusão dos ritmos e estilos musicais, relações entre música e a identidades dos lugares.
Um dos caminhos propostos para a análise geográfica da música popular por Lily Kong é: Música e construção de identidades.
A identidade africana é tema de Congressos, livros, discussões. Emílio Jovando Zeca, jovem estudante moçambicano, apresentou no Instituto Superior de Relações Internacionais de Maputo, texto [ii] abrangente desse tema.
Ao falar em identidade africana a importância da música, e o estudo do seu papel simbólico e não material nos estudos geográficos, assume um papel preponderante. Entre os fundamentais nomes da música africana, e da construção da identidade africana emerge Fela Kuti.
Fela Kuti é um dos principais músicos do continente africano. Pioneiro do afrobeat, ativista dos direitos humanos, teve a mãe, também ativista, assassinada em represália á repercussão da música Zombie, uma descrição dos métodos de ação das forças armadas nigerianas.
A música de Fela, que incorpora aos tambores africanos, e a sensualidade inerente da raça, elementos  do jazz e do rock, é uma celebração à  vida, induzindo ao êxtase  e a reflexão,com energia, festa, suor e força, numa mistura só possível  na esfera da cultura negra.


[i] Música Popular nas análises geográficas. In: Cinema , Música e Espaço. Ed. UERJ, 2009.
[ii] A construção da identidade africana e os líderes mais representativos desse processo. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/48888748/CONSTRUCAO-DA-IDENTIDADE-AFRICANA-E-OS-LIDERES-MAIS-REPRESENTATIVOS-DESTE-PROCESSO-Final. Capturado em: 7/6/2012, 11h15


domingo, 3 de junho de 2012

compromisso ético com a África





Muito se discute sobre quais as razões para que exista miséria, fome e toda uma série de desgraças e doenças na África.

As sugestões para a solução  desses problemas sugere sempre a interferência de organismos internacionais, o apoio de ONG's, um olhar de fora, ainda o olhar do colonizador, da civilização ocidental.

Talvez tenhamos chegado num grande impasse. É possível que o modelo capitalista tenha chegado a uma encruzilhada e exista uma outra possibilidade de mundo, diferente do proposto pelo capitalismo.

Um resgate da sabedoria ancestral, o retorno a uma visão de mundo que propugne  o equilibrio, associado a modernas técnicas não agressivas e apoiadas a um compromisso ético com a vida pode ser usada na África, para a emancipação dos povos e bem estar de todos.

Os problemas que ocorrem na Africa são fruto de um processo histórico, que ocasionou o rompimento do modo de vida africano.

Esses problemas serão solucionados com o apoio de todos, promovendo uma mudança no que deu errado, alicerçado em base tradicionais africanas. "Há certas tradições que não merecem ser celebradas" lembrou o principe Hamlet; dessa forma nem toda tradição é positiva. O que precisa ser valorizado é a vida, o equilibrio e o bem estar de todos, mulheres velhos e crianças, do ser humano e de toda forma de vida.

Para quem pensa que é utopia, ou conversa piegas, sugiro a leitura do texto de Valéria de Marcos: Construindo alternativas a produção agroecológica através da Mandala.

A professora é doutora pela USP  em Geografia, e atualmente é professora da FFLCH, com enfâse em Geografia Agrária.

O trabalho da professora Valéria de Marcos é uma pesquisa sobre alternativas para a produção agrícola na ótica do desenvolvimento local autosustentável.

As práticas defendidas no texto são métodos alternativos de agricultura em respeito ao ambiente, utilizando a permacultura e a agroecologia.

Usando como exemplo o processo de organização e funcionamento da mandala em assentamentos noo Brasil, a autora destaca as pectos realcionados ao cultivo, rotina de trabalho, viabilidade econômica e forma de escoamento da produção.

Retomo dessa forma a discussão iniciada nos comentários do post "O Brasil na África". Lá eu afirmava esperar que a África não seja continuamente um laboratório de atrocidades, mas que seja um lugar de novas possibilidades de valorização da vida.

Isso só é possível com as pessoas certas nos lugares certos. Espero que alguns de nós tenham a possibilidade de encontrarem-se em lugares chave e possam exercer o compromisso ético com o planeta.

Olhar os fenômenos de dentro, compromissado com a vida e amparado pela conhecimento, é uma saída honrosa para enfrentar os problemas na África.

Sugestões de filmes sobre a África



Invictus
Sinopse: Invictus nos traz a inspiradora história de como Nelson Mandela (MORGAN FREEMAN) uniu forças com o capitão da equipe de rúgbi da África do Sul, Francois Pienaar (MATT DAMON), para ajudar a unir a nação.
Recém-eleito, o presidente Mandela sabe que seu país permanece dividido racial e economicamente após o fim do apartheid. Acreditando ser capaz de unificar a população por meio da linguagem universal do esporte, Mandela apóia o desacreditado time da África do Sul na Copa Mundial de Rúgbi de 1995, que faz uma incrível campanha até as finais.
Direção: Clint Eastwood – 2010

Hotel Ruanda
Sinopse: Em Ruanda, no ano de 1994, um conflito político levou à morte quase um milhão de ruandeses, no decorrer de apenas cem dias. O mundo fechou os olhos para Ruanda. Mas um homem abriu seus braços e coração e fez a diferença. Paul Rusesabagina (Don Cheadle) era gerente do Hotel Milles Collines, em Kigali, capital de Ruanda, quando o conflito começou.
Munido apenas da sua coragem, ele protegeu quem chegava ao hotel, adultos e crianças, mas de 1.200 pessoas, assim como sua própria família. Com direção de Terry George (Mães em Luta), indicado a 3 Oscar, baseado em uma história real Hotel Ruanda conta a história de Paul para contar a história de Ruanda, como um alerta ao mundo
Direção: Terry George - 2005

A Intérprete
Sinopse: Intérprete das Nações Unidas, Silvia Broome ouve, por acaso, uma ameaça de morte a um chefe de estado africano, planejada para acontecer na Assembléia Geral das Nações Unidas. A conversa é ouvida num raro dialeto que poucas pessoas além de Silvia, nascida na África, podem entender. A frase "O professor nunca sairá da sala dele vivo" tem o poder, de um instante para o outro, de virar a vida de Silvia de cabeça para baixo.
Sob a proteção do agente federal Tobin Keller, o mundo de Silvia transforma-se num verdadeiro pesadelo. À medida que mergulha no passado de sua testemunha e em seu mundo secreto de conexões internacionais, Keller só encontra razões para desconfiar dela, e passa a suspeitar que a intérprete esteja envolvida na conspiração. Silvia é uma vítima? Uma suspeita? Ou será algo muito diferente disso? E Tobin poderá protegê-la com toda essa desconfiança?
Apesar de precisarem um do outro para deter uma terrível crise internacional, Silvia e Tobin são pessoas totalmente diferentes. A força dela está nas palavras, na diplomacia e nas sutilezas do significado, enquanto Tobin é pura ação e instinto.
Direção: Sydney Pollack - 2005

Uma jornada de esperança
Uma maldição paira sobre um pequeno vilarejo na África do Sul. Uma estranha doença está dizimando a população, principalmente os parentes de Musa, de apenas 9 anos, que já perdeu o pai e a mãe desta forma. As crianças da região insistem com o garoto de que a família dele é que está amaldiçoada e destruindo o vilarejo.
Cansado das acusações, Musa abandona sua avó e parte rumo a Joanesburgo, com a ajuda de Nobe, um caminhoneiro que o encontra na estrada. Chegando na cidade grande, o menino percebe que, como ele, há muitos órfãos à procura de emprego. Ele, então, parte em busca de seu tio, que mora lá, para questioná-lo sobre a misteriosa doença. O que o menino aprende fora de casa o permite voltar a sua vila para dar ao povo grandes lições sobre a vida.
Uma Jornada de Esperança é um filme da África do Sul, de 2003, que trata de temas fortes na região, como a AIDS e os problemas sociais. O longa é o primeiro dirigido pelo cineasta sul-africano David Hickson. O diretor tinha uma carreira consolidada como arquiteto em Londres, até que abandonou tudo para fazer parte do desenvolvimento cinematográfico de seu país de origem.
Direção: David Hickson - 2003

Amistad
O filme inaugural de Steven Spielberg para a DreamWorks Pictures, ´Amistad´, conta com um elenco de primeira linha liderado por Morgan Freeman, Anthony Hopkins, Djimon Hounsou,e Matthew McConaughey. Tendo sido aclamado por seu alto nível de realização e vigor, Amistad recebeu quatro indicações ao Oscar da Academy Award; Melhor Ator Coadjuvante (Hopkins), Melhor Música, Melhor Indumentária e Melhor Cinematografia.
Baseado em um evento real, este filme relata a incrível história de um grupo de escravos africanos que se rebela e se apodera do controle do navio que os transporta e tenta retornar à sua terra de origem. Quando o navio, La Amistad, é aprisionado, esses escravos são levados para os Estados unidos , onde são acusados de assassinato e são jogados em uma prisão à espera do seu destino. Uma empolgante batalha se inicia, o que capta o interesse de toda a nação e confronta os alicerces do sistema judiciário norte-americano. Entretanto, para os homens e mulheres sendo julgados, trata-se simplesmente de uma luta pelos direitos básicos de toda a humanidade... liberdade.
Direção: Steven Spielber - 1987

Diamante de Sangue
Serra Leoa, final da década de 90. O país está em plena guerra civil, com conflitos constantes entre o governo e a Força Unida Revolucionária (FUR). Quando uma tropa da FUR invade uma aldeia da etnia Mende, o pescador Solomon Vandy (Djimon Hounson) é separado de sua família, que consegue fugir. Solomon é levado a um campo de mineração de diamantes, onde é obrigado a trabalhar. Lá ele encontra um diamante cor-de-rosa, que tem cerca de 100 quilates. Solomon consegue escondê-lo em um pedaço de pano e o enterra, mas é descoberto por um integrante da FUR. Neste exato momento ocorre um ataque do governo, que faz com que Solomon e vários dos presentes sejam presos. Ao chegar na cadeia lá está Danny Archer (Leonardo DiCaprio), um ex-mercenário nascido no Zimbábue que se dedica a contrabandear diamantes para a Libéria, de onde são vendidos a grandes corporações. Danny ouve um integrante da FUR acusar Solomon de ter escondido o diamante e se interessa pela história. Ao deixar a prisão Danny faz com que Solomon também saia, propondo-lhe um trato: que ele mostre onde o diamante está escondido, em troca de ajuda para que possa encontrar sua família. Solomon não acredita em Danny mas, sem saída, aceita o acordo.
Direção: Edward Zwick
- 2006 

O último Rei da Escócia
Nicholas Garrigan (James McAvoy) é um elegante médico escocês, que deixou recentemente a faculdade. Ele parte para Uganda em busca de aventura, romance e alegria, por poder ajudar um país que precisa muito de suas habilidades médicas. Logo após sua chegada Nicholas é levado ao local de um acidente bizarro, onde o líder recém-empossado do país Idi Amin (Forest Whitaker), atropelou uma vaca com seu Maserati. Nicholas consegue dominar a situação, o que impressiona Amin. Obcecado com a cultura e a história da Escócia, Amin se afeiçoa a Nicholas e lhe oferece a oportunidade de ser seu médico particular. Ele aceita a oferta, o que faz com que passe a frequentar o círculo interno de um dos mais terríveis ditadores da África.
Direção: Kevin Macdonald
- 2006 

Mandela - Luta Pela Liberdade
James Gregory (Joseph Fiennes) é um típico branco sul-africano, que enxerga os negros como seres inferiores, assim como a maioria da população branca que vivia na África do Sul sob o apartheid dos anos 60. Crescido no interior, ele fala bem o dialeto Xhosa. Exatamente por isso, não é um carcereiro comum: atua, na verdade, como espião do governo com a missão de repassar informações do grupo de Nelson Mandela (Dennis Haysbert) para o serviço de inteligência. Mas a convivência com Mandela cria um forte laço de amizade entre eles e o transforma em um defensor dos direitos negros na África do Sul.
Direção: Bille August
- 2007 

Um Grito de Liberdade
A história de uma amizade memorável entre dois homens inesquecíveis. A tensão e o terror da atualidade da África do Sul é poderosamente retratada neste emocionante filme realizado por Richard Attenborough, que nos conta a história de um ativista negro Stephen Biko (Denzel Washington) e de um editor liberal de um jornal branco que arrisca a sua própria vida para divulgar ao Mundo a mensagem de Biko. Depois de ter conhecimento dos verdadeiros horrores do Apartheid, através das descrições de Biko, o editor Donald Woods (Kevin Kline) descobre que o seu amigo foi silenciado pela polícia. Determinado a fazer ouvir a mensagem de Biko, Woods embarca numa perigosa aventura para escapar da África do Sul e divulgar ao mundo a impressionante história de coragem de Biko. A fascinante história mostra as facetas da humanidade nas suas vertentes mais terríveis e mais heróicas.
Direção: Richard Attenborough
- 1987

sábado, 2 de junho de 2012

Celular no mercado africano



A revolução do SMS
O mercado africano de celulares é o que cresce mais rápido no mundo. Com aparelhos simples e comunicação baseada em mensagens de texto, a mobilidade mudou a vida de milhões de pessoas. O que a experiência da África pode nos ensinar?
Amanda Rossi
Info Exame - 05/2011
Um dia na vida de um agricultor africano não é feito apenas de trabalhar a terra e fazer a colheita. Usando o serviço de SMS de seu celular simples, ele acompanha os preços oferecidos pelos mercados da região para os produtos que cultiva. É pago com dinheiro móvel, que trocará por moeda corrente ou usará para adquirir outras mercadorias. Ele recebe, também por SMS, o dinheiro enviado pelo filho que mora na Inglaterra. E se um elefante está seguindo em direção a seu povoado, um torpedo o alerta de que terá de proteger sua plantação do estômago voraz do animal. Nada disso é previsão para o futuro ou projeção de como as tecnologias móveis contribuirão para o desenvolvimento do continente mais pobre do mundo.

Na África, este é um retrato do que já acontece em diversas regiões, em função da rápida massificação dos celulares. Há oito anos, apenas 5% da população africana possuía um celular. Esse número subiu para 41,4% em 2010. Crescimento tão expressivo fez da África o mercado que cresce mais rápido no mundo, atingindo o dobro do aumento verificado no restante do globo. Hoje, mais pessoas têm acesso à telefonia móvel do que a energia elétrica em países como Moçambique e Quênia. Existem aparelhos que podem ser carregados pelo sol e lojas que vendem tempo na tomada para completar a bateria. Em 2014, estima-se que dois em cada três africanos terão um celular.

A maior inovação vinda da África está na utilização de aparelhos simples para resolver problemas do dia a dia, principalmente usando o popular SMS (short message system). "O celular está mudando a vida das pessoas na África de forma muito mais abrangente do que nos mercados maduros", diz a analista Stephanie Baghdassarian, da consultoria Gartner. Há uma revolução móvel acontecendo no continente africano que pode ser vista nas diferentes formas de transformar um simples torpedo em ferramenta para transferir dinheiro (inclusive entre países, como Inglaterra e Quênia), fazer pagamentos, promover campanhas de saúde pública e mapear conflitos, além de acompanhar o vai e vem dos mercados, tirar empréstimos bancários e até guardar dinheiro em uma poupança. Tudo por SMS.
 “A inovação surge da escassez. Esta é talvez a lição mais importante que aprendemos com a expansão dos serviços móveis na África", afirma Ken Banks, desenvolvedor da FrontlineSMS, plataforma de envio massivo de mensagens pelo sinal de celular, utilizada em diversos países do continente para programas de saúde e educação. "Eu não posso usar meu telefone para pagar um táxi em Londres porque tenho muitas outras opções para isso. Mas se estou no Quênia, não haverá um caixa eletrônico em cada esquina e a maioria das pessoas não tem conta bancária. Mas tem um celular", diz Banks.

USO DO CELULAR CRESCE RÁPIDO
: Acesso a telefone móvel, fixo e internet na África (por 100 habitantes).

DINHEIRO MÓVEL NO QUÊNIA

Os modelos simples e baratos, que fazem apenas ligações e enviam torpedos, representam a quase totalidade do mercado africano de celulares, devido ao baixo poder aquisitivo da população. Na África Subsaariana, 490 milhões de pessoas vivem em condição de pobreza, segundo a ONU. Incrementados por serviços inovadores, esses celulares baratos se transformam em poderosas ferramentas. "Para desenvolver um sistema massivo de informação na África é preciso que ele envolva SMS", afirma Banks. "Ao optar por uma plataforma online para celulares ou por aplicativos que precisam ser baixados, exclui-se de cara um enorme contingente de pessoas. No Zimbábue, por exemplo, a penetração da internet é de 5%."
O Quênia, país do leste africano, está no topo da inovação móvel no continente. Lá surgiu o programa de dinheiro móvel mais bem-sucedido do mundo, o M-Pesa. Em quatro anos de operação teve a adesão de 35% da população do país (ou 14 milhões de pessoas) e movimenta 17 milhões de dólares por dia. "O M-Pesa criou oportunidade de negócios", disse a INFO Michael Joseph, o criador do serviço. "No início, as pessoas recebiam o dinheiro pelo celular e trocavam por moeda. Depois, passaram a guardar no próprio aparelho e trocar por uma cerveja", diz Joseph.

Além do M-Pesa, há 52 projetos de dinheiro móvel na África, mais da metade do total dos 103 existentes no mundo, segundo a consultoria Amarante. Na América Latina, são apenas 13, e no Brasil ainda estão em teste. O mercado africano é promissor devido ao baixo nível de utilização bancária. "Menos de 5% da população da África Subsaariana tem acesso a bancos", afirma Aiaze Mitha, diretor da Amarante.
Programas que utilizam o celular em áreas como agricultura, saúde e educação se multiplicam, financiados por empresas privadas, doadores internacionais e governos. Em Uganda, o projeto Amigos dos Agricultores, feito em parceria com o Google, envia por SMS técnicas de cultivo agrícola, previsão do tempo e cotações. O Esoko, software de acompanhamento por SMS das cotações do mercado, foi lançado em Gana e se espalhou para oito países da região.

Antes da utilização dos celulares, agentes da área de saúde comunitária do Malavi, pequeno país do sudeste africano, anotavam o estado de saúde dos pacientes e se deslocavam até os hospitais mais próximos, muitas vezes a centenas de quilômetros, para registrar as informações. Hoje, usam o FrontlineSMS Medic, aplicativo que transmite os dados usando mensagens de texto. No Mali, ao norte, uma ferramenta semelhante registra excelentes resultados no combate à desnutrição infantil. Quênia e Uganda usam o Ushahidi, software de mapeamento por SMS, para monitorar casos de carência de medicamentos, no programa Stop Stocks-Out.

Os torpedos se transformaram também em um meio de organização política na África. O principal exemplo é a revolta popular que ocorreu em Moçambique, em setembro de 2010, contra a inflação. Convocado por mensagens SMS anônimas, o movimento chamou a atenção do mundo devido ao poder de mobilização. "Moçambicano, prepara-te para a greve geral contra a subida do pão, água, luz e diversos. Envie para outros moçambicanos. Despertar." A mensagem levou milhares às ruas e forçou o governo a reduzir o preço dos produtos básicos.

O Gartner estima que até 2014 o número de conexões de celular na África deverá crescer 60%, passando dos atuais 530 milhões (duas vezes e meia o total brasileiro) para 724 milhões. A receita das empresas de telecomunicações também deve continuar em alta. Hoje, o total movimentado representa boa parte do PIB dos países africanos. No Senegal é de 9%; na África do Sul, 7,5%; no Quênia, 6%. A média mundial gira em torno de 3%.

O crescimento vai se ancorar na expansão da cobertura da rede e da abertura de novos mercados. "Há muita competição", diz Stephanie Baghdassarian, do Gartner. Alguns países, como a Nigéria, têm até dez operadoras competindo. Ao contrário do Brasil e de outros mercados mais maduros, o setor não é tão regulamentado e só agora surgem as primeiras iniciativas de registro de aparelhos.

As tarifas são mais baratas do que as brasileiras. Enquanto o custo de um pacote básico de celular (25 ligações mais 30 SMS) saía por cerca de 34 dólares no Brasil, em 2009, no Quênia era de 7,50 e na Nigéria de 10 dólares, segundo a ITU (União Internacional de Telecomunicações). Mas o poder de compra é bem menor e o pacote básico corresponde a 23% da renda per capita média na África.

Para servir a um mercado de tão baixa renda, as operadoras precisam oferecer serviços flexíveis. As recargas mínimas de pré-pagos, por exemplo, que atendem a 95% dos usuários, têm valores de 20 meticais em Moçambique (cerca de 1 real) e de 50 nairas na Nigéria (0,50 real), por exemplo. Em muitos países também é possível enviar crédito para o celular de outras pessoas.

DINHEIRO E SAÚDE MÓVEIS 
Conheça alguns usos inovadores dos celulares na África

Transferência de dinheiro

O "m" vem de mobile e "pesa" significa dinheiro em suaíli, língua falada no Quênia. O M-Pesa é o primeiro sistema de transferência de dinheiro por celular do mundo a operar em larga escala. Conta com 14 milhões de usuários (35% da população) e transfere 17 milhões de dólares por dia. Funciona assim: após se registrar, o usuário troca dinheiro por e-money, que pode ser enviado para qualquer celular do país e trocado novamente por dinheiro. Lojas, escolas e serviços aceitam e-money. É possível receber dinheiro da Inglaterra, com limite de mil euros por mês.

O mercado no SMS

Criado por uma empresa de software de Gana, o Esoko oferece cadastro de cotações de produtos, como os agrícolas, em várias regiões. O meio é o SMS. Ofertas para compra ou venda são cadastradas e distribuídas para os usuários. Acessível mediante pagamento de uma taxa, o sistema Esoko está em oito países.

Mensagens em massa

Em 2003, Ken Banks estava na África do Sul para criar um método de conectar uma comunidade a um parque nacional e viu no SMS grande potencial para comunicação. Naquele ano, só 5% da população africana tinha celular. Banks criou o FrontlineSMS, plataforma que usa o sinal de celular para enviar torpedos em massa, além de receber e armazenar. Hoje, o sistema é usado para monitorar eleições no Quênia, para lembrar as pessoas de que devem tomar seus medicamentos, para armazenar dados de pacientes no Malavi e para reportar violência contra a mulher no Benin ou contra crianças no Egito.

Mapeamento de problemas

O Ushahidi é um software livre criado no Quênia para mapear casos de violência após as eleições de 2008. Agora é usado em várias partes do mundo. Na Europa, reporta vazamentos de petróleo. No Haiti, localizou vítimas do terremoto. Ushahidi significa testemunho em suaíli. O usuário envia SMS com a localização do incidente. Os dados são georreferenciados e exibidos em mapa.

Programas de saúde pública

A desnutrição infantil no Mali foi reduzida com o auxílio do Pésinet. Os médicos podem monitorar dados de saúde de crianças que vivem em áreas remotas, coletados semanalmente por agentes de saúde e enviados por celular. Quando o estado de saúde é grave, os médicos enviam SMS para os agentes com os nomes das crianças que precisam ser avaliadas pessoalmente.

EXPANDIR A INTERNET É O DESAFIO DE HOJE
No Quênia, a Safaricom criou um novo jeito de fazer ligação a cobrar. O toque do aparelho demora mais que o normal, indicando que a pessoa deve ligar de volta. Muitas operadoras também oferecem um tipo de SMS chamado "please call me" (por favor, me ligue), gratuito e acompanhado de anúncio publicitário. Além disso, em muitos países não existe interurbano. As chamadas dentro de qualquer cidade de Moçambique, por exemplo, têm custo local. "Todos esses serviços poderiam ser interessantes em mercados maduros, mas são desenvolvidos em países onde o dinheiro é curto e onde as operadoras precisam tornar seus produtos flexíveis para atrair os consumidores", diz Stephanie, do Gartner.

A África deu um salto direto para os celulares, sem passar pela telefonia fixa. Hoje há apenas um telefone fixo para cada mil habitantes. "Com a falta crônica de infra-estrutura, o único equipamento de comunicação que é acessível e universal é o celular", diz Mitha, da Amarante. Em 2008, o sinal de celular cobria 60% da população.

Um grande problema na África é a expansão da internet, já que menos de 5% da população têm acesso à rede. Devido à falta de infraestrutura para telefonia fixa, necessária para dial-up e ADSL, o 3G e os smartphones podem se tornar o principal meio de acessar a rede. Especialistas em telefonia móvel estão animados e acreditam que a maioria da população africana terá nos celulares seu primeiro contato com a web. "Os smarphones podem ser a única maneira para o usuário africano navegar", diz Stephanie, do Gartner.

Na África do Sul, na Nigéria e no Quênia já começa a surgir mercado para smartphones e internet 3G, mas na maioria dos países do continente o preço dos aparelhos ainda é proibitivo. Para Ken Banks, da FrontlineSMS, a África dará um grande salto quando um smartphone baixar para 30 dólares. "Os modelos mais baratos que se conectam à internet custam 100 dólares. É muito para quem vive com 2 dólares por dia." Quando os preços baixarem, o agricultor que depende do SMS para se livrar do elefante terá à disposição um mundo muito mais rico e interativo.

• 41% é a penetração dos celulares para cada 100 habitantes na África
• 95% do mercado é de pré-pagos
• 3 países (Nigéria, África do Sul e Quênia) têm a maior concentração de celulares

Literatura africana em sala de aula


Uma Experiência Significativa Com a Literatura Africana
 O currículo e a cultura africana
A escola é um local em que a diversidade cultural deve ser assegurada para que todos tenham garantido o direito de aprender e ampliar conhecimentos, sem serem obrigados a negar a si mesmo, ao grupo étnico/racial a que pertençam e adotar costumes, idéias e comportamentos que lhes são adversos.
Uma das finalidades do currículo é preparar os alunos para serem cidadãos críticos e participativos de uma sociedade democrática. No sentido de concretizar esse objetivo, urge que as instituições escolares se organizem de forma a contemplar as experiências das crianças, para que os alunos não vejam a cultura que comungam ser excluída ou descriminada, no ambiente escolar. Esse é o grande desafio da educação, fazer com que os alunos pratiquem e exercitem ações capazes de prepará-los para participar, ativamente, em sua comunidade.
Tomemos como ponto de partida Salvador, cidade multi-étnica e pluricultural, na qual as raízes africanas florescem cotidianamente, a comida e a música são presenças marcantes. Todavia, as literaturas afro-brasileira e africana são desconhecidas pela maioria da população, que muitas vezes, sob visão preconceituosa, associa as narrativas ao candomblé, por algumas apresentarem os orixás nos seus textos. Partindo do pressuposto que a literatura africana é vasta, torna-se primordial quebrar-se o paradigma de que somente o patrimônio europeu deve predominar e que as culturas das classes minoritárias, especialmente a indígena e a africana, só sejam contempladas no âmbito folclórico. Para tanto, deve-se buscar meios de conhecer a diversidade da população africana e, socializá-la no ambiente escolar, visando despertar nos educandos a autoestima em ser afro-descendentes. Uma das alternativas são os contos africanos, os quais revelam um mundo muitas vezes desconhecido, formado de reis, príncipes, orixás e de homens fortes que lutaram pela liberdade.
Segundo Santoméi, quando se analisam os conteúdos que são desenvolvidos no currículo comum das unidades escolares, observa-se que aquilo que é enfatizado faz parte da cultura das chamadas nações hegemônicas. As culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários, quando não costumam ser negadas ou discriminadas, são silenciadas.
A Lei Federal No 10.639/2003 que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional fixadas pela Lei No 9394/1996, ao tornar obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, é uma das políticas públicas adotadas pelo Governo Federal com objetivo de reparar e reconhecer as desigualdades raciais e sociais sofridas pelas pessoas negras. Mas será que com a vigência desta lei, as instituições de ensino já estão desenvolvendo projetos que contemplem a cultura africana? E se estão, como estes projetos estão sendo desenvolvidos?
Nesse sentido, o Conselho Nacional de Educação instituiu em 2004, Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, objetivando instrumentar as instituições de ensino com princípios, orientações e fundamentos que norteiem à construção de projetos que versem sobre temáticas da Pluralidade Cultural.
No entanto, ainda há uma necessidade latente em se investigar como os educadores, diante da lei, vêm desenvolvendo projetos que considerem a cultura afro brasileira, de forma a contribuir, significativamente, para formação da auto-imagem positiva do aluno.
Inicialmente, o que se tem percebido é uma abordagem fragmentada e estereotipada com relação à pluralidade cultural. O negro sendo relacionado à música, ao tambor, à dança e à comida. Parece que a população negra, não produz literatura, e se produz, ainda, não está incluída no currículo escolar. Como espaço de socialização a escola interfere, e muito, no processo de construção da auto-imagem. Numa perspectiva de uma educação plural, a identidade racial deve ser aspecto central, em que passam os conteúdos escolares, as abordagens metodológicas e as práticas pedagógicas. O aluno afro-brasileiro não deve ter o horizonte limitado apenas à esfera musical, e sim, se perceber como um sujeito capaz de produzir intelectualmente.
 Angola na sala de aula
Na fronteira da mudança de valores e instauração de novas práticas, foi pensado e concebido o projeto literário Descobrindo a África, em uma classe de 4ª série do ensino fundamental do Colégio Estadual Princesa Isabel, localizado no bairro da Cidade Novaii.
Com o objetivo de despertar nos educandos o ideal de que a diferença pode ser bela e que a diversidade é enriquecedora e não sinônimo de desigualdade, o projeto desvendou a realidade de um país africano a partir da literatura. Durante o III bimestre de 2005, fizemos uma incursão literária ao conto africano As aventuras de Ngunga, de autoria de Pepetelaiii, tendo como fio condutor de todas as ações desenvolvidas, o reforço à auto-estima.
A escolha da obra deu-se, a partir dos questionamentos dos alunos sobre a dificuldade de se encontrar um texto no qual a personagem principal fosse representada por um negro. Apesar do desafio, identificou-se no CEAFRO (Centro de Estudos Afro- Orientais/UFBA), um exemplar do livro As aventuras de Ngunga. Com uma perspectiva bastante significativa, a obra relata, em seu bojo, as lutas nacionalistas angolanas, vivenciadas pelos negros para se libertarem da colonização européia, dando-lhes um tratamento de herói. A personagem principal é uma criança, que participa do movimento em prol da liberdade. Apesar do caráter revolucionário, a narrativa transborda de beleza e magnitude. Encontram-se presentes no texto os animais da floresta, os elementos da natureza, os espíritos e símbolos sobrenaturais, representantes da cultura africana.
Para que os alunos pudessem ter contato direto com o livro, decidiu-se ir a um Sebo da cidade e adquirir dez exemplares. Como a sala era composta de 20 alunos, optou-se por trabalhar com o texto, na própria classe, em dupla. A obra foi separada em capítulos, e a cada aula de Literatura, fazia-se uma retrospectiva do capítulo anterior e iniciava-se o próximo.
Logo no início da história, os alunos desvendaram que a personagem principal, Ngunga, era um menino órfão de 10 anos, que perdeu os pais em uma das lutas nacionalistas de Angola e, que vivia nas florestas africanas, de aldeia em aldeia, solitário e dependendo da ajuda dos habitantes até se envolver na causa libertária e se transformar em um guerrilheiro modelo.
Durante a trajetória da narrativa, pode-se identificar o processo de transformação psíquica que transcorreu com a personagem principal. Inicialmente apresentando-se como uma criança insegura que sofre muito, diante da solidão e da ausência de alguém que a ame realmente. "Por que ter de voltar? Ninguém o espera no Kimbo, ninguém ficaria preocupado se ele não aparecesse. Quem se lembraria de procurar Ngunga, o órfão, se morresse?"iv. A posteriore, Ngunga se transforma em um guerrilheiro que enfrenta suas próprias ameaças e aprende decifrar a realidade, identificando as armadilhas que aprisionam seu povo.
Com o decorrer da leitura da obra, os alunos passaram a se identificar com Ngunga. Para as crianças, era o herói ideal, que enfrentava todos os problemas e lutava contra as injustiças. Um menino valente que não deseja riqueza, honra, poder ou imortalidade, mas que aspirava à integridade, ao conhecimento e à sabedoria. Um dos trechos mais eloqüentes da narrativa, é quando o corajoso jovem desmascara o Presidente Kafuxi, ao alertar a comunidade sobre a exploração e a mentira na qual estavam vivendo.
Em contramão as denominações negativas em relação à cor preta, que podem levar as crianças negras, por associação, a sentirem horror à sua pele negra, o texto exerceu nos alunos uma influência positiva, posto que representasse a figura do negro como herói e portador de valores éticos. Tal afirmativa foi constatada ao observar que no intervalo das aulas, as crianças dramatizavam as lutas revolucionárias angolanas e era uma briga para definir quem faria a personagem de Ngunga. Lacan elucida essa questão ao antecipar que: "[...] a identidade é formada, ao longo do tempo, através da interação com o "Outro" e que a construção de uma auto-imagem positiva incide ao fato de existir referências que respaldem essa auto-imagem “v.
Assim, os alunos viram em Ngunga, a representação de uma criança negra, um referencial positivo. Com o passar das páginas, os alunos mergulharam no universo angolano, aprendendo, de forma panorâmica, sobre a diversidade artística e cultural, os costumes, a geografia, o clima, a história política e, principalmente sobre o processo de revoltas que Angola passou para se libertar de Portugal, situando danos causados pela exploração colonial e imperialista. Que pela revolução uniram-se a esse movimento de intensas lutas e de profundas tensões, intelectuais e analfabetos, crianças e adultos, negros e brancos - africanos ou estrangeiros - que comungavam do mesmo ideal de liberdade, tudo apostando na utopia de que com as suas vidas estavam a construir a soberania de uma nação.
Os educandos observaram as semelhanças entre a cultura de Angola e da Bahia, principalmente no que tange às mazelas sociais. Através de entrevistas com estudantes de nacionalidade angolana, descobriram que existe uma influência muito grande do Brasil em Angola, que as novelas brasileiras são transmitidas no país e os produtos vendidos nas feiras livres.
Com o protagonista da história, as crianças extrapolaram as expectativas do projeto e aprenderam a lição da reconstrução de uma pátria, a partir do trabalho paciente e constante que alimenta a esperança. O significado da festa que reúne várias aldeias, motivo de alegria e celebração que marca vários procedimentos habituais da sociedade africana: a importância da participação da coletividade em todos os acontecimentos; a parceria tanto na preparação dos alimentos, quanto nas atividades revolucionárias; o respeito à fala dos mais velhos; e, sobretudo, o estabelecimento da reunião comunitária como espaço de troca de informações.
Na narrativa, Ngunga representa o ser honrado, que denuncia o desrespeito às tradições e aos costumes que precisam ser mantidos. Tal afirmativa ilustra-se, em uma fala em que a personagem principal alerta Imba sobre o comportamento inadequado do pai dela, o Presidente Kafuxi:
Lá estava ele sentado ao lado do responsável pelo setor e de outros mais velhos. Quando falava, os outros guardavam silêncio. Mas, se eram os outros a falar, ele gostava de interromper, o que era contra os costumes. E os outros aceitavam. vi
O mundo africano possibilita à criança afro-brasileira o referencial positivo, visto que é rico de valores e tradições, em que o pensar e o sentir estão interligados. Nas narrativas, pode-se identificar a presença deste universo, uma vez que, em suas histórias está contido o modo de vida africano, sua religiosidade, as atividades desenvolvidas nas comunidades, as relações interpessoais e familiares, a culinária, a música e as vestimentas utilizadas nos rituais.
A partir do estudo realizado sobre Angola, tomando como ponto de partida a narrativa As aventuras de Ngunga, pode-se inferir que, a literatura africana refere-se ao cotidiano, ao trabalho, à guerra e ao amor. Neles os negros não estão representados como escravos, passivos e fracos que aceitaram o cativeiro imposto pelos europeus. Ao contrário, são retratados como homens fortes, senhores de sua vontade, filhos da divindade. Pessoas que se reúnem de forma organizada, para defender os ideais que acreditam.
A originalidade dos contos expressa formas específicas de transmissão dos valores da tradição, formadores de caráter educativo, em que a experiência vivida é capaz de gerar sabedoria. Nesse sistema, a comunicação ocorre de maneira intergrupal, direta e dinâmica acompanhada de cânticos, danças e dramatizações.
Segundo Lacanvii, a identidade é formada ao longo do tempo, através de processos inconscientes, não é algo inato, existente na consciência, no momento do nascimento, ela é construída a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser visto pelo outro.
Dessa forma, se não estiver presente na sala de aula um referencial positivo em ser negro, a criança não tem como construir uma auto-imagem positiva de ser afro descendente, a partir, apenas, dos contos de fadas dos irmãos Grimm, Branca de Neve, A Bela Adormecida e outros, nos quais as personagens são exemplo étnicos de uma cultura imperialista e colonialista que sempre buscou desenvolver um poder ideológico, para que os povos colonizados esquecessem sua identidade em detrimento da deles. Nessa perspectiva, aponta-se a necessidade de se repensar elementos para construção, gradativa, de um referencial positivo de ser afro-descendente, refletindo sobre atitudes preconceituosas e despertando a crença na liberdade, no respeito, na alteridade, na tolerância e na apreciação de tradições e valores alheios. Para tanto, é necessário que, as escolas desenvolvam projetos que contemplem a diversidade cultural do Brasil, assegurando a construção de princípios e valores de respeito mútuo e de convivência harmoniosa entre os povos.

Referências bibliográficas:
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, DF, CNE, 10 de março de 2004. Petronília Beatriz Gonçalves e Silva (Relatora). _______. Lei nº 10639, de 9 de janeiro de 2003. Diário Oficial da União de 10 de janeiro de 2003. _______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1988.
LACAN, J. "The mirror stage as formative of the function of the I". In: Écrits. Londres: Tavistock, 1977.
MACHADO, Vanda. Ilê Axé: vivências e construções pedagógicas crianças do Opô Afonjá. Salvador: Edufba, 1999.
PEPETELA. As Aventuras de Ngunga. Autores Africanos. São Paulo, Ática, 1980.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. "As culturas negadas e silenciadas no currículo". In: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.) Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. 6ª edição. Petrópolis: Vozes, 2005.
i SANTOMÉ, 1992 apud SILVA, 2005, p. 65.
ii Bairro popular, em que a maioria da população é constituída de negros e mestiços.
iii PEPETELA, 1980.
iv Idem, ibidem., p. 13.
v LACAN, 1977, p. 28.
vi PEPETELA, op. cit., p. 8.
vii LACAN, op. cit., p. 25.